Mas parece que no quarto dia os ventos haviam mudado de direção. Como em todas as tardes sentamos no meio-fio e ficamos lá conversando. Dessa vez não deixei Adrian ir convidar ele. Também não foi preciso. Ele foi espontaneamente. Perguntou se não íamos jogar vôlei. Todo mundo com preguiça por causa do calor, mas mesmo assim lá fomos nós.
Aquele dia devia estar uns 35°c, tava horrível, as gurias com um short e a parte de cima do biquini, o Adrian só de bermuda. Ele todo certinho estava com uma camiseta regata. Aquela santidade toda estava me dando nos nervos já. Nos outros dias eu até estava mais comportada pra não assustar o menino, mas naquele dia não, odeio passar calor, então foda-se se ele não ia gostar de ver a gente de biquini.
Adrian convidou o Jonatan pra jogar verdade ou consequência novamente, eu podia matar. Mas ele aceitou na boa, aliás, foi o primeiro a dizer que queria.
Ficamos lá jogando, aquilo já estava enjoado, afinal que tanta coisa assim a gente teria pra revelar pros outros, eu conhecia meu primo e minha melhor amiga como a palma da mão, a Bruna nem tanto... Enfim, acho que a mais cheia de segredinhos ali com certeza era eu, e esses bem, não contei nenhum!! hehehe
Perguntas vão, respostas vêm e ele pediu consequência para uma pergunta, não lembro de quem, mas minha é que não era.
A proposta???? Beijar a Carolzinha. Dessa vez não valia selinho...
Ahhh eu podia matar, fiquei puta, disso eu lembro. Ele aceitou, perguntou pra mim se havia algum problema ainda.
Não!
Problema nenhum 
Chegou perto de mim, dessa vez fechei os olhos e “seja o que Deus quiser”, (frase muito apropriada para o contexto né?!). Um beijo que não demorou muito, mas foi suave, sem pressa, gostosinho até. Depois disso ele ficou ali do meu lado, o tal do jogo acabou, ninguém mais tinha saco para aquilo.
Aos poucos o povo foi sumindo, Bruna precisava ir, a minha amiga também, parece que ia viajar. Ficamos eu, ele e Adrian sentados na calçada da vizinha, a grama, as árvores...
Foi um conversa bem descontraída, ele mesmo que sério procurou responder da melhor maneira possível todas as minhas perguntas sobre a igreja e o estilo de vida que ele pretendia levar.
Me revelou a menina que morava na frente da casa dele, onde morava a Bruna, era meio que confidente dele. Ele contava pra ela e parece que ela também revelava coisas pra ele. Perguntei se eles namoravam e ele disse que não, a “menina” como ele havia me dito, tinha mais ou menos os seus 25 anos. Uma mulher feita, mas ele gostava de conversar com ela, sentia confiança. É óbvio gente que eu perguntei se foi com ela que ele perdeu a virgindade e ele disse que não, poderia estar mentindo, mas acho que ele não era um mentiroso. Tinha perdido o cabaço com uma menina de quem ele gostava muito, na antiga cidade onde eles moravam. Me revelou que foi no sofá, que ficou algumas vezes com ela mas a vontade de ser padre era mais forte.
A dúvida era se ele ainda gostava de menina, mas resolvi não perguntar nada, eu já estava sendo invasiva demais. Como sempre né Carolzinha??????
rsrsrs
Por um momento quase esqueço que meu primo está ali, mas estava. Isso não impediu que trocássemos beijinhus, dessa vez mais demorados, ainda que inocentes.
Gostei daquilo, um cara totalmente diferente dos outros.
No quinto dia não haveria jogo de vôlei nem de verdade ou consequência. Acho que estávamos oficialmente “ficando” e no final da história me pareceu que não era apenas eu que estava gostando daquilo, ele também.
Bruna tinha ido embora, minha amiga havia ido viajar. Estávamos eu e meu primo sentados sozinhos no mesmo local de sempre, ou o meio-fio na frente da sua casa ou na calçada do outro lado da rua, gramado, árvores, sombra, ventinho...
Meu tio saiu pra ir trabalhar e brincou se estávamos ali esperando o “Padrezinho”. Olhei pro meu primo quase fuzilando ele, coitado. Mas ele já foi avisando que não havia contado nada, a verdade é que a vizinha que mora na frente viu e contou pra minha tia. Mas eles nem se importaram, somos adolescentes, é normal termos namoradinhos, ainda mais um padre, quem ia se preocupar???? Garanto que minha tia ficou feliz por eu estar de namorico com alguém que botasse juízo nessa cabecinha...
Ahh mas isso é fácil responder... não conseguiu, vocês bem sabem né pessoas????
huahuahua
Parando com a palhaçada... A notícia da rua era Carolzinha e o Padre. Só o que me faltava. Passaram alguns dias e nós continuávamos nos encontrando. Conheci a casa dele, ele foi na da minha avó, mas ninguém via a gente como um casal, todo mundo achava que era mais uma amizade colorida, afinal ele ia ser padre. Todo mundo, menos eu. Talvez ele também, enfim... Sei que ficávamos, nos beijávamos mas nunca passava daquilo, mesmo que a gente insistisse e deixasse rolar, em algum momento nós sempre paravámos.
Jonatan logo se aproximou de mim e de meu primo e perguntou onde estavam as outras meninas, falei que havia saído e ele avisou que também não ia poder ficar, queria ir na igreja, já que fazia alguns dias que não estava indo lá.
Sentou do nosso lado, me deu um beijo novamente. Sim, estávamos ficando mesmo:
-
Vocês querem ir comigo na igreja?
-
Vamos. Eu disse na hora, sem nem pensar direito.
Meu
primo que não ficou muito feliz, mas aceitou, afinal ele era
parceria.
O Adrian foi avisar a mãe onde nós íamos e logo
saímos. Jonatan fez uma volta bem grande por umas duas ou três
quadras até chegarmos na igreja. Coisa mais meiguinha no meio da
rua os dois andando de mãos dadas e meus primo segurando vela...
Aff.. só matando!! rsrs
No caminho conversamos muito, rimos, contamos piadas, ele estava bem mais comunicativo que o normal.
Quando chegamos na igreja ele sentou em um dos últimos bancos, sentei do seu lado.
Meu primo não, sentou bem na frente, muito longe para não ficar ali segurando vela a tarde toda.
Silêncio total. Não abriu a boca, ficou olhando a decoração e as figuras pintadas nas paredes, depois que haviam feito a reforma na igreja ela tinha ficado uma das mais bonitas da cidade:
-
Ouve o silêncio. Ele me disse.
-
Você se sente bem assim, não é?
-
É, quando estamos em silêncio conversamos com Deus.
-
Vem aqui todos os dias pra falar com Deus?
-
Sim. Você não consegue? Se concentra, você vai conseguir.
Ficamos ali uns 10, vinte, trinta minutos sentados um do lado do outro sem dizer nada. Eu olhando a igreja, não conseguia conversar com Deus. Ele quase que em transe.
Quebrei o silêncio, por um momento exitei, eu podia estar interrompendo a conversa dele com Deus rsrs
-
Jonatan. Sabe que eu me criei vindo nessa igreja. Minha família vinha, não todo final de semana, mas cada vez que eu vinha eu me sentia diferente aqui dentro. O horário que eu prefiro vir é o do sábado à noite. Mas engraçado é que desde que fui morar naquela cidade, mesmo que eu vá na igreja de lá, que também é muito bonita, não é a mesma coisa, é aqui que me sinto bem.
-
Também gosto daqui. - Ele respondeu, sorrindo, estava gostando de me ver falando aquelas coisas.
-
Jonatan, vc não me falou muito de você, mora com seus pais, com irmãos, como é isso.
-
Moro com minha mae e com meu irmão mais novo. Vc viu ele aquele dia, é um pestinha, ele dá problemas na escola, apronta muito.
Verdade, um dia antes ele havia passado pela gente na rua e feito caretas, falou alguns palavrões e a mae dele veio buscar o guri pelas orelhas até em casa. Rsrsrs
-
E seu pai? - Perguntei.
-
Não gosto dele.
-
Porque? Bom... Me desculpa se estou sendo intrometida, não precisa responder se não quiser. - Falei vendo que a expressão no rosto dele havia mudado.
-
Meu pai é drogado. Foi por isso que a minha mãe se separou dele. A gente veio embora pra ficar longe dele. Ainda por cima ele contraiu AIDS, está doente. Eu já tentei ajudar ele, mas não adianta.
Novo silêncio tomou conta do lugar. Fiquei sem jeito de ouvir aquilo, mas ele não parecia mais incomodado com a situação, mas notou meu constrangimento:
-
Carol, não precisa ficar assim, não tenho problemas pra falar sobre isso, mas não e uma coisa que gosto de conversar com todo mundo.
-
Mas é isso, talvez você não quisesse falar sobre isso comigo, eu que fui invasiva demais.
-
Não. Nada disso, eu gosto de você. Você é legal. Só que...
-
O que?
-
Conversei com aquela minha amiga. Contei pra ela que eu estava ficando com você, que você era legal. E ela me aconselhou a me afastar. Ela acha que eu tenho que escolher entre ser padre ou ter uma vida normal, ter namoradas e tocar a vida como todo mundo. Eu prefiro o sacerdócio, por isso que acho melhor a gente não ficar mais.
-
Entendo. Você está certo, não se pode assoviar e chupar cana ao mesmo tempo!!
Começamos a rir, antes eu tive que fazer a pergunta que estava me incomodando fazia alguns dias:
-
É pecado você, que quer ser padre, se relacionar? Transar, beijar, namorar, essas coisas?
-
Não. Só vai ser quando eu for padre de verdade. Mas não quero sair do meu caminho, por isso nunca levo esse tipo de coisa adiante.
Ele soltou a minha mão. Levantamos do banco e chamamos meu primo para ir pra casa.
Fomos embora agora pelo caminho mais curto.
O nosso casinho terminava por ali, sempre passava por mim na rua e cumprimentava, mas não passou disso, foi mais um dos “amores de verão” que eu tive. Achei de muito caráter ele me falar abertamente sobre o que pensava, talvez por isso achei que o sentimento que ele havia despertado em mim era recíproco, ele queria fazer as coisas certas, ademais contou pra menina sobre mim. É uma pena que ele seja padre!!!
rsrsrs
Porque lembrei disso agora há mais de 5 anos depois????
Porque dia desses havíamos ido na casa do meu sogro, eu e Renato. E ao chegar, mesmo indo lá quase todos os finais de semana nunca havia notado as bugigangas que o velho guarda. Ele tinha um calendário do ano de 2007 pendurado na parede, com uma foto de seminaristas de um colégio do ramo aqui no Rio Grande do Sul... E quem eu encontro lá entre eles????
Sim, o meu padrezinho!!! Dei um sorriso amarelo diante da imagem, mas lá no fundinho eu fiquei feliz por ele não ter cedido à Carolzinha!


























Mas
sério, fui lá e nem imaginava o que ia acontecer.

Aparece Margarida!!!!










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